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Por que corrigimos tanto antes de terminar de escrever?

Às vezes passamos vinte minutos escolhendo a primeira frase e ainda não sabemos o que queremos contar. Nem sempre é falta de ideias.

2 min de leitura

Escrevemos uma frase. Lemos. Mudamos uma palavra, mexemos numa vírgula e pensamos que o começo poderia ser mais interessante. Apagamos a frase e escrevemos outra. Vinte minutos depois, temos um início bastante elegante e nenhuma ideia desenvolvida. Pelo menos a primeira linha ficou impecável, mesmo que já não lembremos direito o que vinha depois.

Revisar faz parte de escrever. O problema aparece quando tentamos fazer tudo ao mesmo tempo: descobrir o que queremos dizer, encontrar as palavras, conferir se estão corretas e decidir se soam bonitas. São tarefas diferentes, e nem sempre se dão bem quando precisam dividir o mesmo minuto.

Às vezes precisamos permitir que o primeiro rascunho seja menos elegante para descobrir qual texto estamos tentando construir.

Dois trabalhos que acabam se atrapalhando

Pense numa conversa com alguém de confiança. Começamos contando uma história, percebemos que esquecemos um detalhe e voltamos um pouco. Talvez repitamos uma expressão ou usemos uma palavra vaga demais. Mesmo assim, a história continua. A outra pessoa nos ouve e conseguimos chegar ao final.

Ao escrever, porém, enxergamos todas as imperfeições na tela. Cada repetição parece pedir uma correção imediata. E muitas vezes corrigimos, mesmo sem saber se aquela frase vai sobreviver à revisão seguinte.

O centro de escrita da Universidade da Virgínia recomenda, entre as estratégias para começar, a escrita livre: colocar as ideias no papel sem se preocupar, num primeiro momento, com a gramática ou com a elegância das frases. É uma maneira de produzir material para avaliar depois, não um convite a publicar tudo que vier à cabeça.

Podemos experimentar separar dois momentos. No primeiro, escrevemos ou ditamos sem voltar constantemente ao início. Se surge uma dúvida, marcamos e continuamos. Se falta uma palavra, usamos outra provisoriamente. O objetivo não é atingir um determinado número de páginas; é avançar o suficiente para começar a reconhecer o caminho do texto.

No segundo momento, fazemos outro trabalho. Voltamos ao começo, retiramos as frases que não acrescentam, reorganizamos as ideias e conferimos a precisão. Aí sim vale discutir se uma expressão ficou vaga demais ou se precisamos de outro exemplo. Agora sabemos melhor qual é a função de cada parágrafo.

Isso não significa que nunca podemos revisar enquanto escrevemos. Algumas pessoas precisam parar para organizar o pensamento; outras encontram ideias melhores quando revisam uma frase. Não existe uma lei igual para todo mundo. A diferença está em perceber quando a revisão está ajudando e quando se tornou uma desculpa elegante para não avançar.

Se for mais fácil explicar suas ideias falando, você pode utilizar um ditado ao vivo e transformar depois o resultado num rascunho. Ferramentas como o Transcritor permitem levar a voz para um documento sem digitar cada palavra, embora o texto também precise de edição.

Talvez, da próxima vez que perceber que está há quinze minutos mudando o primeiro parágrafo, você possa deixar uma marca e continuar. Não porque a qualidade deixe de importar, mas porque, para revisar um texto inteiro, primeiro precisamos dar a ele a oportunidade de existir.

E quem sabe: talvez, ao chegar ao final, você descubra que aquela primeira frase, que parecia tão importante, nem sequer era o verdadeiro começo.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

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