Ir para o conteúdo
PT/ES

Por que o Brasil fala português e boa parte da América do Sul fala espanhol

O Tratado de Tordesilhas explica uma parte da história. Para entender por que o Brasil fala português, também precisamos olhar para as línguas indígenas e a vida das pessoas.

3 min de leitura

Basta olhar para um mapa da América do Sul para surgir uma pergunta: como um país tão grande passou a falar português, enquanto boa parte do continente adotou o espanhol? A resposta mais fácil tem apenas três palavras: Tratado de Tordesilhas. Só que a história não é tão simples assim.

Em 7 de junho de 1494, Castela e Portugal assinaram um acordo para dividir entre si as terras que pretendiam explorar e conquistar fora da Europa. Traçaram uma linha imaginária a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. A légua era uma antiga medida de distância. Aquela linha ajudou a definir quais territórios cada coroa reivindicaria e teve consequências enormes para a história das Américas. Mas não bastava desenhá-la para decidir que língua as pessoas falariam.

Um tratado não muda a língua de um continente

Para começar, os povos indígenas que viviam na América não participaram daquela negociação. E nem existia um Brasil com o tamanho e as fronteiras que conhecemos hoje. O território foi mudando ao longo dos séculos, entre conquistas, acordos, guerras e deslocamentos de populações.

Há duas perguntas diferentes por trás do mapa: por que Portugal se estabeleceu em parte da América do Sul? E como o português se espalhou por um território tão grande? A primeira tem muito a ver com as viagens e conquistas das monarquias europeias. Para responder à segunda, precisamos olhar para o que acontecia na vida das pessoas.

Quando os portugueses chegaram, muitas línguas já eram faladas no território que hoje chamamos de Brasil. Os recém-chegados nem sempre conseguiam se fazer entender e, em muitos lugares, aprenderam línguas indígenas para se comunicar. Também se difundiram as chamadas línguas gerais: línguas de origem indígena que ajudavam pessoas de comunidades diferentes a conversar entre si.

O Museu da Língua Portuguesa explica que duas delas se tornaram especialmente conhecidas, a paulista e a amazônica. A língua geral amazônica também é conhecida como nheengatu e continua sendo falada em partes da Amazônia. O nome significa «língua boa».

Isso muda bastante a imagem de que os portugueses desembarcaram em 1500 e, de repente, todo mundo começou a falar como eles. Durante muito tempo, o português esteve longe de ser a língua de todos.

No século XVIII, as autoridades portuguesas adotaram medidas para impor o português no ensino e na administração e limitar o uso de outras línguas. A presença de colonos, as relações entre comunidades e a chegada forçada de africanos escravizados também fizeram parte dessa história. A transformação não foi imediata nem aconteceu da mesma maneira em todas as regiões.

E o espanhol dos países vizinhos?

Em boa parte da América do Sul aconteceu algo semelhante com o espanhol. A Coroa espanhola governou amplos territórios e, ao longo dos séculos, a língua se espalhou pelas cidades, escolas, instituições e relações do dia a dia. Mas ali também não desapareceram todas as línguas anteriores. O quéchua, o aimará e o guarani, por exemplo, continuam sendo falados.

E há um detalhe que às vezes passa despercebido: nem todos os vizinhos do Brasil falam espanhol. Guiana, Suriname e Guiana Francesa têm histórias diferentes, com o inglês, o neerlandês e o francês, respectivamente, como línguas oficiais.

Por isso, não dá para resumir a história tão facilmente. Por trás de cada país, estado ou província, existem povos que falavam suas próprias línguas, colonizadores que trouxeram outras e gerações que aprenderam, misturaram ou preservaram seus modos de falar. A história de quem viveu antes de nós continua presente nas palavras que usamos, nos nossos costumes e até na maneira como enxergamos o mundo.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

Continue lendo