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As amizades que não tiveram despedida

Algumas amizades não acabam por causa de uma briga. Os encontros diminuem, as mensagens somem e, quando percebemos, anos se passaram.

3 min de leitura

Às vezes a lembrança aparece por uma bobagem. Uma música que alguém sempre colocava, o nome de uma rua, uma foto antiga em que estamos rindo de alguma coisa que nem lembramos mais. Reconhecemos perfeitamente a pessoa. Só não sabemos quando foi a última conversa.

Não houve briga. Ninguém bateu a porta. Vieram outros horários, outros empregos, talvez outra cidade. As mensagens ficaram mais curtas, as respostas foram demorando. Depois veio um aniversário esquecido, um encontro que não deu certo e, por fim, um silêncio que nenhum dos dois achou urgente quebrar.

Algumas amizades terminam assim. Sem despedida e sem uma data que dê para marcar no calendário.

Nem toda distância tem um culpado

Quando uma relação importante muda, dá vontade de procurar alguém para pôr a culpa. «Esqueceu de mim». «Era sempre eu que puxava assunto». «Se ligasse para mim, daria um jeito».

Às vezes essas frases têm fundamento. Existem relações desequilibradas e pessoas que machucam de verdade. Mas, em outros casos, não há vilão nenhum, por mais que a história ficasse mais fácil de entender se houvesse.

Durante anos, podemos dividir o mesmo lugar quase todo dia: escola, trabalho, bairro, mesa do almoço. Não é preciso combinar muita coisa para se ver. A convivência faz boa parte do trabalho. Quando essa rotina some, manter a amizade passa a pedir decisões que antes nem percebíamos.

Quem estuda como as amizades chegam ao fim diferencia as rupturas abertas dos afastamentos que acontecem aos poucos. Essa diferença ajuda a pensar, mas não pretende explicar a história de cada dupla de amigos. Perder contato não é a mesma coisa que romper depois de uma briga.

A dificuldade de mandar um simples oi

Talvez o número ainda esteja salvo no celular. Às vezes sabemos até onde a pessoa passou as férias ou onde está trabalhando, porque as redes sociais mostram essas coisas. Temos notícias, mas não temos mais uma conversa.

Bastaria escrever «lembrei de você hoje». Só que aí vêm as dúvidas: será que vai parecer estranho? Será que incomoda? Preciso explicar todos esses anos? Melhor deixar para depois.

Em 2024, as psicólogas Lara Aknin e Gillian Sandstrom publicaram um estudo sobre a dificuldade de retomar o contato com antigos amigos. Muita gente hesitava em mandar uma mensagem mesmo achando que seria bem recebida. Uma possível explicação é curiosa: depois de muito tempo, aquele amigo de antes pode começar a parecer quase um desconhecido. A pesquisa envolveu grupos específicos de pessoas, principalmente de países de língua inglesa; os resultados não valem como regra para todo mundo.

E a situação pode mesmo ser esquisita. Como conversar hoje com alguém que sabia tantos detalhes da nossa vida anos atrás? Ainda usamos as mesmas brincadeiras? Perguntamos por alguém que talvez já não esteja por perto? Por onde se recomeça uma conversa que parece ter ficado suspensa?

Há amizades que sobrevivem muito bem a longos silêncios. Duas pessoas podem passar meses sem se ver e retomar o papo de onde pararam. Outras se reencontram e percebem que mudaram tanto que têm pouco em comum além de algumas boas lembranças.

Nenhuma das duas situações precisa ser vista como fracasso.

Certas pessoas nos conheceram quando tínhamos outro trabalho, outra aparência ou planos completamente diferentes para o futuro. Elas guardam uma versão nossa que quase ninguém mais conhece. Talvez por isso algumas lembranças de amizade sejam tão especiais: elas incluem a pessoa que fomos naquela época.

Mas isso não obriga ninguém a retomar a relação. Voltar a conversar pode fazer bem, pode causar desconforto ou simplesmente não ser uma boa ideia, principalmente quando houve desrespeito ou sofrimento. Ter dividido o passado não dá passe livre para entrar na vida atual de alguém.

Ainda assim, existe uma pequena estranheza nisso tudo: podemos passar anos sem notícias de uma pessoa e continuar lembrando exatamente da risada dela. Não sei se essa lembrança pede uma mensagem ou só alguns minutos de silêncio. Talvez dependa da história que ficou.

Às vezes a amizade acabou. Às vezes só perdeu espaço na rotina. De longe, as duas coisas podem parecer iguais.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

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