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Como a Liberdade se tornou o bairro japonês de São Paulo?

Por trás das luminárias da Liberdade há séculos de história negra, migrações e um projeto urbano que mudou a imagem do bairro.

5 min de leitura

Quem chega hoje ao bairro da Liberdade, em São Paulo, encontra luminárias vermelhas, letreiros com caracteres asiáticos, lojas especializadas e pessoas indo de um restaurante a outro. É compreensível que muitos visitantes o conheçam como o bairro japonês. Mas basta caminhar alguns minutos e prestar atenção aos edifícios mais antigos para descobrir que essa imagem conta apenas parte da história.

A Liberdade não nasceu como um bairro japonês. Antes da chegada dos primeiros imigrantes asiáticos, suas ruas já haviam conhecido famílias negras, trabalhadores, migrantes, edifícios religiosos e episódios dolorosos da história paulistana. Entender como ela se transformou exige olhar também para o que ficou por trás das luzes.

O que havia na Liberdade antes das luminárias?

Nos séculos XVIII e XIX, a região fazia parte de uma área periférica da antiga São Paulo. Ali havia espaços ligados a punições públicas, entre eles o Largo da Forca, e o Cemitério dos Aflitos, onde eram enterradas pessoas que muitas vezes não encontravam lugar em outros cemitérios. A Capela dos Aflitos ainda permite reconhecer parte daquela memória.

A população negra, tanto escravizada quanto livre, fazia parte da vida daquelas redondezas. Havia trabalhos, redes religiosas e formas de convivência que deixaram marcas no bairro. Não seria correto descrever a Liberdade como um lugar vazio até a chegada dos japoneses, nem reduzir seus moradores anteriores a uma simples nota de rodapé.

Em 1821 aconteceu ali a execução de Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinhas, um soldado negro ligado a um protesto por pagamentos atrasados. Em torno de sua morte surgiram relatos populares sobre as cordas da forca e os gritos de «liberdade» de quem presenciava a cena. Essas narrativas estão associadas ao nome do bairro, mas os detalhes transmitidos oralmente não devem ser tratados como uma reconstituição incontestável do que aconteceu.

Um documento histórico da Prefeitura de São Paulo recupera essa trajetória e lembra que naquela parte da cidade viviam muitas pessoas negras, entre elas trabalhadores livres e libertos. A região mudou de nome, de moradores e de funções, mas sua história não começou com o comércio oriental.

Como a comunidade japonesa chegou à Liberdade?

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em 1908. Anos depois, alguns começaram a se instalar na região da Liberdade, particularmente nos arredores da rua Conde de Sarzedas. Os aluguéis relativamente acessíveis e a proximidade do centro ofereciam possibilidades a quem estava começando uma vida na cidade.

Não surgiu imediatamente um bairro cheio de decoração japonesa. Primeiro chegaram as pessoas, suas casas, pequenos negócios, serviços e lugares de encontro. Quem procurava um alimento conhecido, um jornal ou alguém com quem falar sua língua podia encontrar essas coisas perto de outros imigrantes. Pouco a pouco, a presença japonesa ficou mais visível no comércio e na vida cultural da região.

Um exemplo concreto foi o Cine Niterói, inaugurado em 1953, que exibia filmes japoneses e ajudou a atrair espectadores e atividades comerciais para os arredores. O cinema não sobreviveu às transformações urbanas posteriores, mas faz parte da memória de uma comunidade que foi construindo seus espaços antes de existir a paisagem turística que conhecemos.

Nas décadas seguintes, a presença de outras comunidades asiáticas, especialmente chinesas e coreanas, também deixou marcas na Liberdade. Por isso a palavra «japonês» explica parte de sua identidade, mas não é suficiente para descrever toda a diversidade que encontramos hoje.

Quando surgiram as famosas luminárias?

A transformação visual mais reconhecível veio muito depois das primeiras famílias imigrantes. Na década de 1970 foi promovido um projeto para apresentar a Liberdade como um «Bairro Oriental», com iluminação característica, símbolos decorativos e melhorias destinadas também a atrair visitantes. Em 1974 consolidou-se uma etapa importante daquela iniciativa.

As famosas luminárias, conhecidas como suzuranto, não estavam ali desde o tempo dos primeiros imigrantes. Foram instaladas como parte de uma intervenção urbana que acabou se tornando uma marca do bairro. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo estuda como a proposta reuniu interesses comerciais, turismo e uma determinada imagem da identidade paulistana.

A decoração não inventou a comunidade japonesa que já morava ali. Mas modificou a maneira como a cidade e os visitantes viam o lugar. O que antes podia ser reconhecido principalmente por seus moradores, comércios e associações passou a ter uma identidade visual imediata. Bastava olhar as luminárias para saber que se havia chegado à Liberdade.

Quais histórias ficaram menos visíveis?

As luminárias ajudaram a dar visibilidade ao bairro e a movimentar seu comércio. Mas toda identidade visual seleciona o que mostra. Na Liberdade, a força da imagem oriental fez com que, durante muito tempo, ficassem menos visíveis as memórias negras, os vestígios do Cemitério dos Aflitos e as histórias de outras comunidades que haviam vivido ali.

A Universidade de São Paulo documentou iniciativas recentes de recuperação dessas memórias. Esse trabalho não pretende apagar a presença japonesa, mas permitir que ela conviva com histórias anteriores e paralelas. Uma cidade pode reconhecer suas diferentes heranças sem obrigá-las a competir por uma única narrativa.

Há algo especialmente interessante nesse contraste. Uma luminária instalada há algumas décadas pode nos parecer antiga porque já se tornou parte da paisagem. Uma capela muito mais velha pode passar despercebida porque não se parece com a imagem que esperamos encontrar. Às vezes a memória de uma cidade não está escondida: simplesmente deixamos de olhar para ela.

A Liberdade é, sem dúvida, um lugar importante para as culturas japonesas e de outras comunidades asiáticas em São Paulo. Mas sua história também é feita de trabalhadores negros, migrantes de diferentes origens, edifícios religiosos, comércio e decisões urbanísticas. Quando conhecemos essas camadas, o bairro não perde encanto. Ganha profundidade.

Na próxima vez que alguém caminhar sob as luminárias vermelhas, talvez possa parar também diante de uma capela, de um nome de rua ou de uma esquina antiga. Não para escolher qual dessas memórias é a verdadeira, mas para compreender que todas ajudam a contar como uma parte de São Paulo se tornou o que é hoje.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

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