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As frases que herdamos sem perceber

Um dia a gente se escuta repetindo exatamente o que alguém da família dizia. Certas expressões carregam muito mais do que palavras.

3 min de leitura

Uma pessoa está saindo de casa e alguém avisa: “Leva um casaco, vai que esfria”. É uma frase comum, dessas que saem quase sem pensar. Mas outra pessoa ri: “Nossa, você falou igualzinho à sua avó”.

De repente, um conselho sobre o tempo vira uma lembrança de família. Talvez ninguém tenha uma foto daquele momento nem saiba quando ouviu a frase pela primeira vez. Mesmo assim, ela continua aparecendo, às vezes com a mesma entonação.

Muitas palavras a gente aprende na escola, nos livros ou porque precisa delas no trabalho. Outras entram na nossa vida de um jeito discreto: na hora do almoço, numa discussão sobre alguma coisa que passou na televisão ou quando alguém reclama que deixaram a porta aberta.

Palavras comuns com endereço certo

Toda família parece ter algumas frases que se repetem. “Não sai sem comer”. “Apaga a luz”. “Olha por onde anda”. Nada disso é exclusivo de uma casa. O que deixa essas frases especiais é a voz de quem dizia, a hora em que apareciam ou o jeito de esticar uma palavra.

Às vezes a gente reconhece até a pausa antes do fim. A melodia da frase fica na memória, mesmo quando as palavras são das mais comuns.

Também existem frases que a gente entendia errado quando era criança. Um adulto fazia uma ironia e a gente levava tudo ao pé da letra. Muito tempo depois, descobria que era brincadeira, exagero ou um jeito de evitar briga.

Em famílias que vivem entre duas línguas, a história fica ainda mais interessante. Alguém que mora há anos num país de língua espanhola talvez continue dizendo saudade, em português, quando sente falta de uma pessoa ou de um lugar. Não é que o espanhol não consiga dizer isso. É que certas palavras vêm acompanhadas de vozes, lembranças e costumes.

As histórias que lembramos juntos

A memória de família não é um arquivo onde cada um guarda uma cópia idêntica do que aconteceu. Uma história é contada no almoço e alguém acrescenta um detalhe. Outra pessoa corrige uma data. Um terceiro lembra de alguma coisa que tinha ficado esquecida.

A psicóloga Robyn Fivush, da Universidade Emory, estudou como as conversas de família sobre o passado ajudam a construir as nossas lembranças. Os trabalhos dela falam de histórias compartilhadas, não da origem de cada expressão de família. Dá para perceber a influência de quem conviveu com a gente sem precisar de uma explicação científica para tudo o que dizemos.

E às vezes a memória engana. Talvez uma frase que passamos anos atribuindo a um avô fosse muito comum na época dele. Talvez ele a dissesse de outro jeito. Lembrar também envolve pequenas mudanças.

Quando as palavras mudam de dono

É engraçado ouvir uma pessoa jovem repetir, com toda a seriedade, uma expressão que antes achava antiquada. Pode ter reclamado dela por anos. Agora usa a mesma frase para mandar os filhos fecharem a janela.

Nesse caminho, o sentido também pode mudar. Uma bronca vira brincadeira. Uma expressão solene passa a ser usada com ironia. Podemos até repetir palavras de alguém com quem tivemos uma relação complicada. Reconhecer a voz não significa achar que aquela pessoa estava sempre certa.

Aliás, nem toda lembrança de família é carinhosa. Certas frases incomodam, trazem tristeza ou lembram uma fase que a gente gostaria de deixar para trás. Essas pequenas heranças não vêm organizadas numa caixa de coisas boas. Cabe a nós decidir o que guardar, o que mudar e o que parar de repetir.

Às vezes pensamos na memória como uma coisa que vamos procurar: abrimos um álbum, encontramos cartas antigas, voltamos a uma rua conhecida. Mas ela também pode aparecer enquanto passamos um café ou chamamos alguém para almoçar.

Uma frase escapa. Reconhecemos a entonação. Por alguns segundos, alguém que não está ali parece participar da conversa.

Depois, talvez voltemos a falar de qualquer coisa. Do café, do preço das frutas, da chuva que pode chegar amanhã. Não precisa transformar o momento numa grande cerimônia.

Certas palavras, depois de passar por tantas bocas, já não pertencem inteiramente a ninguém. Mas, quando as ouvimos, sabemos direitinho de quem estamos lembrando.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

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