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As coisas que guardamos mesmo sem precisar delas

Um ingresso antigo, uma chave sem porta, uma camiseta gasta. Há coisas que já não cumprem sua função, mas das quais ainda custa abrir mão.

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No fundo de uma gaveta aparece uma chave. É pequena, tem um chaveiro de plástico gasto e já não sabemos o que abre. Ficamos olhando de perto, como se ela fosse se explicar. No fim, volta para a gaveta. Na próxima arrumação, provavelmente repetiremos a cena.

Com outras coisas nem existe dúvida. Sabemos perfeitamente que aquele ingresso de cinema venceu há anos, que a camiseta está gasta demais para usar e que o relógio parou de funcionar. Mas, quando chega a hora de decidir o que fazer com elas, a pergunta não parece ser “ainda serve?”. Parece outra, bem mais difícil: “o que eu perco se jogar fora?”.

Talvez não seja a chave. Talvez seja a casa onde morávamos, a pessoa que a deu ou uma época da nossa vida em que tínhamos outros hábitos. Os objetos têm a particularidade de ficar parados enquanto nós mudamos. Às vezes parecem ser os últimos a perceber.

Uma lembrança que cabe na mão

Uma fotografia pode nos levar de volta a uma conversa de que já tínhamos esquecido. Uma caneca pode lembrar alguém que sempre a usava. Até uma receita escrita à mão guarda algo que uma cópia impressa dificilmente reproduz: uma letra apressada, uma mancha de óleo e aquela palavra que só quem cozinhava entendia.

Numa revisão publicada em 2021, Elise van den Hoven e seus colegas examinaram diferentes ligações entre objetos pessoais e lembranças. Descreveram como certos pertences podem ajudar a preservar, evocar ou expressar experiências. A pesquisa não significa que todos precisem guardar as mesmas coisas nem que uma lembrança necessariamente desapareça quando perdemos um objeto.

Também vale distinguir o carinho por alguns pertences de uma dificuldade grave para se desfazer das coisas. Guardar algumas cartas ou lembranças de família não é, por si só, um transtorno. E nem todo apego é profundo: às vezes conservamos algo porque pensamos em consertar um dia, porque custou dinheiro ou porque simplesmente esquecemos que estava ali.

Dois irmãos esvaziam a casa em que cresceram. Um quer ficar com uma mesa antiga. O outro não entende por quê: está arranhada, ocupa muito espaço e existem modelos novos bem mais práticos. Talvez nenhum dos dois esteja errado. Um vê um móvel; o outro se lembra das tardes de lição, das refeições apressadas e das discussões que se resolviam no dia seguinte.

A mesa continua a mesma, mas não tem o mesmo significado para os dois. Essa diferença pode provocar discussões mais dolorosas do que uma simples mudança faria imaginar. Não estamos comparando apenas móveis. Às vezes estamos comparando maneiras de lembrar.

E se um dia deixarmos algo ir embora?

Num estudo publicado em 2015, Yang Yang e Jeff Galak investigaram o valor sentimental de certos objetos e como ele pode permanecer mesmo quando a utilidade ou a novidade diminuem. O trabalho ajuda a entender por que um pertence antigo ainda pode ser importante. Não oferece uma regra sobre o que devemos conservar.

Porque existem escolhas diferentes, todas razoáveis dependendo das circunstâncias. Alguém guarda a camisa do pai durante décadas. Outra pessoa prefere doá-la a quem vá usar. Uma terceira decide fotografar um objeto e se despedir dele. Nenhuma dessas opções mede quanto amou aquela pessoa.

Também existem lembranças de fases que preferimos deixar para trás. Não precisamos transformar toda a vida num museu, especialmente quando alguns objetos nos causam sofrimento. Às vezes abrir espaço em casa permite respirar melhor; em outras ocasiões, despedir-se de alguma coisa leva tempo. A decisão pode mudar conforme o momento.

Talvez a pergunta útil não seja se devemos guardar ou jogar tudo fora, mas o que cada coisa significa hoje. Guardamos porque ficamos felizes ao vê-la? Porque alguém pode precisar? Ou porque temos medo de nos sentir culpados ao deixar ir? Não são respostas iguais.

A chave da gaveta talvez continue ali por outros dez anos. Quem sabe um dia descobrimos o que ela abria e damos risada. Ou talvez acabe numa caixa de objetos para reciclagem, depois de uma última olhada. Se isso acontecer, o lugar ao qual pertenceu terá existido do mesmo jeito. A chave não era a casa, apenas nos ajudava a encontrá-la na memória.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

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