Ir para o conteúdo
PT/ES

Por que a América se chama América?

Em 1507, alguns cartógrafos escreveram uma palavra nova num mapa. Depois, o próprio autor deixou de usá-la. Mas a palavra já tinha ganhado o mundo.

3 min de leitura

Basta olhar um mapa para encontrar uma palavra que a gente usa sem pensar: América. Ela está nos livros, nas notícias e no jeito como muita gente fala do lugar onde nasceu. Mas houve um tempo em que nenhum mapa trazia esse nome. Quem o escreveu pela primeira vez? E por que ele ficou?

A resposta nos leva a 1507, a uma pequena cidade europeia e a um grupo de pessoas que tentava entender as notícias que chegavam do outro lado do oceano. Elas queriam desenhar nos mapas terras que, para elas, ainda eram difíceis de localizar.

Quem escreveu “America” num mapa?

Em Saint-Dié, numa região que hoje pertence à França, o cartógrafo Martin Waldseemüller ajudou a preparar um grande mapa do mundo. Ele juntava o que se sabia desde a Antiguidade com as notícias das viagens europeias do fim do século XV e começo do XVI. Vinha acompanhado de um livrinho escrito em latim, a língua usada por muitos estudiosos da época.

Essas viagens tinham aberto uma pergunta enorme para os europeus: as terras do outro lado do Atlântico faziam parte da Ásia ou eram outra coisa? Ninguém tinha certeza ainda, mas os relatos atribuídos ao navegador florentino Américo Vespúcio ajudaram a espalhar a segunda ideia.

O grupo de Saint-Dié quis reconhecer essa ideia com um nome. No mapa de Waldseemüller apareceu a palavra America sobre a parte de terra que hoje chamamos de América do Sul. A proposta também era explicada no livro Cosmographiae introductio. Não foi um acordo assinado por quem vivia naquelas terras, nem uma decisão de todos os geógrafos do mundo.

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos guarda o único exemplar conhecido dessa primeira edição impressa do mapa. Ele foi feito com gravuras em madeira e tinha doze folhas. Vale lembrar: naquela época, um mapa não se copiava apertando um botão. Entalhar a matriz, imprimir e fazer o mapa circular dava muito trabalho.

Por que o nome sobreviveu?

E aí vem uma virada curiosa. Em trabalhos posteriores, Waldseemüller deixou de usar o nome América. Num atlas de 1513, a região aparece com outro nome, e no mapa de 1516 a palavra também não está. Não se sabe ao certo por que ele mudou de ideia. Talvez tenha revisto as informações que tinha ou o jeito de atribuir as viagens.

Mas um nome não depende só de quem o inventa. Depende também de quem copia, imprime e repete. Outros cartógrafos continuaram usando a palavra e, com o tempo, ela foi aparecendo em mapas e livros novos. O nome ganhou vida própria, mesmo quando quem o divulgou primeiro já não o escrevia.

Se um dia você vir esse mapa, numa reprodução ou na coleção digital da biblioteca, procure a palavra. Olhar o mapa ajuda a entender algo que o texto sozinho não mostra: as costas e os tamanhos não são os de um atlas moderno. Os mapas também guardam o que uma época sabia, o que imaginava e o que ainda não conhecia.

E por que não tem o nome de Colombo?

Cristóvão Colombo tinha atravessado o Atlântico antes de Vespúcio. Então a pergunta é natural: por que pegou um nome ligado ao segundo e não ao primeiro? Não se trata de quem chegou antes. Para os estudiosos de Saint-Dié, o que pesou foi a forma como Vespúcio interpretou aquelas terras.

Isso também não quer dizer que Vespúcio tenha descoberto terras vazias. A América era habitada havia muito tempo, e os povos daqui tinham nomes para si mesmos, para suas regiões, seus rios e suas montanhas. O que aconteceu em 1507 faz parte da história da cartografia europeia, não do começo da história americana.

Com os séculos, «América» virou uma palavra comum em quase todo o mundo. Hoje a gente fala sem pensar num impressor, num livro em latim ou num mapa de doze folhas. E, mesmo assim, foram essas coisas que ajudaram a fixar o nome. É difícil imaginar que uma decisão tomada diante de um mapa acabaria fazendo parte da identidade de povos que nunca participaram dela.

F. J. Levin

Revisado e aprovado

Continue lendo